CiênciaTecnologia

“E o Verbo se fez… código?”

O avanço da Inteligência Artificial e o risco de uma fé cega no algoritmo

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”
— Evangelho de João, capítulo 1

Agora, no século XXI, o Verbo continua poderoso — mas cada vez mais ele se materializa em código, prompts e algoritmos. A linguagem, que molda realidades, agora é traduzida por máquinas, interpretada por redes neurais e reproduzida por IAs generativas com fluidez quase divina.

Estamos diante de uma nova era: a era em que a tecnologia parece ter assumido o papel do criador. E a pergunta que ecoa é: estamos prontos para isso?

A nova “encarnação” do conhecimento

Com o avanço da Inteligência Artificial, escrever textos, gerar imagens, compor músicas, criar softwares e até tomar decisões passou a ser tarefa também de máquinas que “falam” com a gente.

A IA já não apenas obedece — ela interpreta, sugere, completa, improvisa. E o que antes era verbo humano (feito de intenção, emoção, ética e contexto), hoje é transformado em tokens, datasets e linhas de código.

Mas ao mesmo tempo que a IA impressiona, ela também assusta.

Riscos do novo “evangelho digital”

1. Desumanização do processo criativo

A IA é rápida, mas não sente. Ao usar máquinas para escrever poesia, compor músicas ou pintar quadros, estamos substituindo emoção por estatística. A arte sem alma pode até entreter, mas não transforma.

2. Fé cega na tecnologia

Começamos a aceitar decisões algorítmicas sem questionar. Como se o código fosse infalível, puro e acima do bem e do mal. Mas todo algoritmo é escrito por humanos — e carrega nossos vieses.

3. Colonização dos sentidos

Estamos consumindo conteúdo cada vez mais gerado por máquinas. Isso molda nosso gosto, nossas ideias e até nossa forma de amar e acreditar. E quando tudo ao nosso redor é otimizado para “engajamento”, o que sobra de espaço para a contemplação e a dúvida?

4. Automação de decisões morais

IA em tribunais, hospitais, segurança pública… Estamos delegando escolhas éticas a sistemas que não têm consciência, apenas lógica. E isso pode custar caro: de injustiças invisíveis a tragédias irreversíveis.

A Ascensão da IA — E o Declínio da Consciência?

A IA está se tornando cada vez mais eficiente em tarefas antes reservadas à mente humana: escrever textos, gerar imagens, responder perguntas, programar, tomar decisões… Tudo isso com velocidade e precisão impressionantes.

Mas há um detalhe essencial: a IA não sente, não crê, não pondera. Ela prevê, calcula e executa com base em padrões — não com base em valores, ética ou empatia.

E aí mora o problema.

O que não pode ser codificado

Podemos transformar palavras em código, sentimentos em dados e comportamentos em estatísticas. Mas algumas coisas continuam fora do alcance da IA:

  • O significado que damos à vida
  • A intenção por trás das escolhas
  • O cuidado com o outro
  • O limite moral da eficiência

A inteligência artificial pode nos ajudar. Mas ela nunca deve nos substituir no que temos de mais humano.

Uma nova religião? Ou um novo alerta?

Há quem trate a IA como um novo oráculo: consultamos o ChatGPT em busca de sabedoria, pedimos que o algoritmo nos diga o que assistir, o que vestir, o que pensar. Estamos mesmo criando uma nova religião digital, onde o código é o novo verbo e o datacenter é o novo templo?

Se o “verbo se fez código”, então é hora de perguntar: quem está escrevendo esse código? Com qual propósito? E a serviço de quem?

A tecnologia não é boa nem má — ela é reflexo de quem a cria e de como a usamos. O avanço da IA é inevitável, mas o modo como lidamos com ele ainda está em aberto. E nesse cenário, talvez a pergunta mais importante não seja “o que a IA pode fazer?”.


Sobre o colunista

Alexandre Bastos é mestre em Administração de Empresas pela FGV, pós-graduado em Gestão da Inovação e Direito Digital pela FIA, pós-graduado em International Business pela BSP, MBA Executivo e pós-graduado em Gestão de Projetos pela Escola de Negócios do IMT, graduado em Sistemas de Informação na FIAP. Com experiência de 22 anos na área de Tecnologia, atualmente trabalha com inovação e consultoria para empresas nacionais e internacionais na Oonder Tecnologia, além de se dedicar a novos negócios e investimentos.