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IA e Criatividade: Inspiração ou Atalho Perigoso?

Ferramentas de inteligência artificial estão revolucionando a forma como criamos, mas especialistas alertam: o excesso de dependência pode comprometer o pensamento crítico e a capacidade humana de resolver problemas de forma autônoma.

Criatividade aumentada ou terceirizada?

A inteligência artificial generativa — capaz de escrever textos, compor músicas, criar imagens e até sugerir soluções técnicas — vem sendo vista como uma aliada poderosa da criatividade. Profissionais de áreas como design, marketing, literatura, cinema e programação passaram a contar com “copilotos” digitais que aceleram processos, reduzem barreiras técnicas e inspiram novas ideias.

No entanto, junto com a facilidade vem uma questão inquietante: estamos nos tornando mais criativos ou apenas mais dependentes?

Em uma matéria publicada pelo MIT Technology Review – Como a IA pode Potencializar a Criatividade – a matéria faz comparações da aplicação da IA na música, estudos, trabalho e dia a dia. Um ponto que pegou nessa matéria foi uma frase do Mike Cook, pesquisador de criatividade computacional no King´s College London – ““Infelizmente, estamos removendo a única coisa que você precisa fazer para desenvolver habilidades criativas por si mesmo, que é falhar,” diz Cook. “Mas absolutamente ninguém quer ouvir isso.”

Ao utilizarmos em demasiado as centenas de ferramentas de IA disponíveis estamos buscando soluções rápidas para problemas que não queremos resolver, soluções que não queremos criar e conhecimento que não querermos buscar por meio de horas e horas de estudos consumindo livros e artigos.

O lado bom: IA como ferramenta de expansão criativa

Para muitos criadores, a IA representa uma espécie de catalisador. Ao sugerir variações, explorar estilos e gerar alternativas rapidamente, ela permite ao ser humano testar ideias que talvez nunca considerasse sozinho.

Exemplos incluem:

  • Designers que usam IA para prototipar logos ou produtos rapidamente.
  • Roteiristas que experimentam novos plots com ajuda de modelos como o GPT.
  • Artistas visuais que combinam estilos clássicos e modernos com um clique.
  • Desenvolvedores que recebem sugestões de código e resoluções de bugs complexos.

Nesses casos, a IA não substitui a criatividade, mas sim a estimula — oferecendo insumos e provocando novas interpretações.

O lado sombrio: a armadilha da comodidade

Entretanto, um estudo publicado em fevereiro de 2025 pela Microsoft Research Cambridge acendeu o alerta. Segundo os pesquisadores, ferramentas de IA generativa “podem inibir o engajamento crítico com o trabalho e potencialmente levar a uma dependência excessiva da ferramenta a longo prazo, diminuindo a habilidade para resolução independente de problemas”.

Há um risco real de que pessoas passem a aceitar a primeira sugestão gerada pela IA como solução final, reduzindo o pensamento crítico, a curiosidade e até a originalidade.

Em outras palavras, ao automatizar partes do processo criativo, a IA também pode minar o esforço necessário para aprender, experimentar e errar — etapas fundamentais da criação humana.

Redução da Diversidade de Ideias: Embora a IA possa melhorar a qualidade percebida das criações, estudos indicam que as ideias geradas tendem a ser mais semelhantes entre si, reduzindo a diversidade e a originalidade.

ixação em Exemplos Gerados por IA: Pesquisas mostram que o uso de geradores de imagens baseados em IA durante tarefas de ideação visual levou a uma maior fixação nos exemplos iniciais, resultando em menos ideias e com menor variedade e originalidade.

Diminuição do Pensamento Crítico no Ambiente de Trabalho: Um estudo da Microsoft Research identificou que trabalhadores que utilizam ferramentas de IA, como o Copilot, tendem a confiar excessivamente nas respostas geradas, reduzindo o engajamento crítico e a capacidade de resolver problemas de forma independente.

Equilíbrio é a chave: IA como parceira, não substituta

Como toda tecnologia, o impacto da IA depende da forma como ela é usada. Quando encarada como ferramenta de apoio — e não como substituto do esforço humano — ela pode enriquecer o processo criativo.

Algumas recomendações para manter esse equilíbrio:

  • Use a IA como provocadora, não como oráculo: deixe que ela traga alternativas, mas faça questão de avaliá-las criticamente.
  • Mantenha a prática manual: continue desenhando, escrevendo, programando — sem recorrer à IA sempre que surgir um bloqueio.
  • Estude os fundamentos: quanto mais você entender o “por trás” da solução, mais útil será a IA como ferramenta e menos como muleta.
  • Desenvolva sua voz própria: lembre-se de que a IA é treinada com o que já existe. Criar algo verdadeiramente novo ainda é papel humano.

Criar ainda é um ato profundamente humano

A IA oferece ferramentas poderosas para potencializar a criatividade, mas é essencial usá-la com discernimento. Incorporar a IA como parceira no processo criativo, sem substituir o esforço humano, pode levar a resultados mais inovadores e autênticos. É fundamental manter o pensamento crítico e a originalidade, garantindo que a tecnologia sirva como um complemento, e não como uma muleta.


Alexandre Bastos é mestre em Administração de Empresas pela FGV, pós-graduado em Gestão da Inovação e Direito Digital pela FIA, pós-graduado em International Business pela BSP, MBA Executivo e pós-graduado em Gestão de Projetos pela Escola de Negócios do IMT, graduado em Sistemas de Informação na FIAP. Com experiência de 22 anos na área de Tecnologia, atualmente trabalha com inovação e consultoria para empresas nacionais e internacionais na Oonder Tecnologia, além de se dedicar a novos negócios e investimentos.

Sobre o colunista

CiênciaTecnologia

“E o Verbo se fez… código?”

O avanço da Inteligência Artificial e o risco de uma fé cega no algoritmo

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”
— Evangelho de João, capítulo 1

Agora, no século XXI, o Verbo continua poderoso — mas cada vez mais ele se materializa em código, prompts e algoritmos. A linguagem, que molda realidades, agora é traduzida por máquinas, interpretada por redes neurais e reproduzida por IAs generativas com fluidez quase divina.

Estamos diante de uma nova era: a era em que a tecnologia parece ter assumido o papel do criador. E a pergunta que ecoa é: estamos prontos para isso?

A nova “encarnação” do conhecimento

Com o avanço da Inteligência Artificial, escrever textos, gerar imagens, compor músicas, criar softwares e até tomar decisões passou a ser tarefa também de máquinas que “falam” com a gente.

A IA já não apenas obedece — ela interpreta, sugere, completa, improvisa. E o que antes era verbo humano (feito de intenção, emoção, ética e contexto), hoje é transformado em tokens, datasets e linhas de código.

Mas ao mesmo tempo que a IA impressiona, ela também assusta.

Riscos do novo “evangelho digital”

1. Desumanização do processo criativo

A IA é rápida, mas não sente. Ao usar máquinas para escrever poesia, compor músicas ou pintar quadros, estamos substituindo emoção por estatística. A arte sem alma pode até entreter, mas não transforma.

2. Fé cega na tecnologia

Começamos a aceitar decisões algorítmicas sem questionar. Como se o código fosse infalível, puro e acima do bem e do mal. Mas todo algoritmo é escrito por humanos — e carrega nossos vieses.

3. Colonização dos sentidos

Estamos consumindo conteúdo cada vez mais gerado por máquinas. Isso molda nosso gosto, nossas ideias e até nossa forma de amar e acreditar. E quando tudo ao nosso redor é otimizado para “engajamento”, o que sobra de espaço para a contemplação e a dúvida?

4. Automação de decisões morais

IA em tribunais, hospitais, segurança pública… Estamos delegando escolhas éticas a sistemas que não têm consciência, apenas lógica. E isso pode custar caro: de injustiças invisíveis a tragédias irreversíveis.

A Ascensão da IA — E o Declínio da Consciência?

A IA está se tornando cada vez mais eficiente em tarefas antes reservadas à mente humana: escrever textos, gerar imagens, responder perguntas, programar, tomar decisões… Tudo isso com velocidade e precisão impressionantes.

Mas há um detalhe essencial: a IA não sente, não crê, não pondera. Ela prevê, calcula e executa com base em padrões — não com base em valores, ética ou empatia.

E aí mora o problema.

O que não pode ser codificado

Podemos transformar palavras em código, sentimentos em dados e comportamentos em estatísticas. Mas algumas coisas continuam fora do alcance da IA:

  • O significado que damos à vida
  • A intenção por trás das escolhas
  • O cuidado com o outro
  • O limite moral da eficiência

A inteligência artificial pode nos ajudar. Mas ela nunca deve nos substituir no que temos de mais humano.

Uma nova religião? Ou um novo alerta?

Há quem trate a IA como um novo oráculo: consultamos o ChatGPT em busca de sabedoria, pedimos que o algoritmo nos diga o que assistir, o que vestir, o que pensar. Estamos mesmo criando uma nova religião digital, onde o código é o novo verbo e o datacenter é o novo templo?

Se o “verbo se fez código”, então é hora de perguntar: quem está escrevendo esse código? Com qual propósito? E a serviço de quem?

A tecnologia não é boa nem má — ela é reflexo de quem a cria e de como a usamos. O avanço da IA é inevitável, mas o modo como lidamos com ele ainda está em aberto. E nesse cenário, talvez a pergunta mais importante não seja “o que a IA pode fazer?”.


Sobre o colunista

Alexandre Bastos é mestre em Administração de Empresas pela FGV, pós-graduado em Gestão da Inovação e Direito Digital pela FIA, pós-graduado em International Business pela BSP, MBA Executivo e pós-graduado em Gestão de Projetos pela Escola de Negócios do IMT, graduado em Sistemas de Informação na FIAP. Com experiência de 22 anos na área de Tecnologia, atualmente trabalha com inovação e consultoria para empresas nacionais e internacionais na Oonder Tecnologia, além de se dedicar a novos negócios e investimentos.

InovaçãoTecnologia

Inteligência Artificial

A revolução invisível que já está moldando o futuro

De assistentes virtuais a diagnósticos médicos, a Inteligência Artificial está transformando a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos com o mundo.

A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser apenas um conceito de filmes de ficção científica e já faz parte do nosso cotidiano. Seja ao pedir uma música para um assistente virtual, conversar com um chatbot no site de um banco, ou até receber sugestões de filmes em plataformas de streaming, há algoritmos trabalhando silenciosamente para tornar nossa vida mais eficiente — e, muitas vezes, mais previsível.

Nos últimos anos, os avanços na IA têm impressionado especialistas e leigos. Modelos de linguagem como o ChatGPT, da OpenAI, demonstram uma capacidade quase humana de compreender, interpretar e responder a textos complexos. Ao mesmo tempo, algoritmos são usados para diagnosticar doenças com alta precisão, prever falhas em sistemas industriais, otimizar o tráfego urbano e até criar obras de arte e músicas.

Segundo um relatório da consultoria McKinsey, a adoção da IA pode gerar um impacto econômico de até 13 trilhões de dólares na economia global até 2030. “Estamos vivendo uma nova revolução tecnológica, com potencial de transformação comparável à da eletricidade ou da internet”, afirma Carla Menezes, pesquisadora em Inteligência Artificial e professora da USP.

Mas nem tudo são flores. O avanço acelerado da IA também levanta questões éticas e sociais importantes: como garantir que os algoritmos não reproduzam preconceitos? Quem será responsável por decisões automatizadas que afetam vidas humanas? E como lidar com a substituição de empregos por máquinas inteligentes?

Crescimento e Adoção da IA

De acordo com o relatório “State of AI” da McKinsey, a adoção da IA nas organizações aumentou significativamente. Em 2024, 78% dos entrevistados relataram o uso da IA em pelo menos uma função de negócios, um salto em relação aos 55% registrados em 2023. As áreas de Tecnologia da Informação e Marketing lideram essa implementação, refletindo a crescente integração da IA nas operações empresariais.

Avanços Técnicos e Inovações

O “AI Index Report 2025” da Universidade de Stanford destaca que a corrida global pela Inteligência Artificial Geral (AGI) está se intensificando. Empresas como OpenAI, Google, Meta e a chinesa DeepSeek estão na vanguarda, com a DeepSeek lançando o modelo R1, que rivaliza com os principais modelos dos EUA, apesar das restrições de acesso a recursos computacionais avançados. Além disso, a eficiência do hardware de IA aumentou em 40%, tornando a tecnologia mais acessível. ​WIRED

Desafios Éticos e Sociais

Apesar dos avanços, a IA enfrenta desafios significativos. Uma pesquisa do Pew Research Center revelou uma crescente desconexão entre especialistas em IA e o público em geral nos EUA. Enquanto cerca de 75% dos especialistas estão otimistas quanto aos benefícios da IA, apenas 25% do público compartilha desse sentimento. Questões como preconceitos algorítmicos, responsabilidade em decisões automatizadas e substituição de empregos por máquinas inteligentes são preocupações latentes. ​The Verge

Perspectivas Futuras

Especialistas preveem que, até 2025, a IA evoluirá de uma ferramenta para uma parte integral da vida cotidiana. Agentes de IA mais autônomos simplificarão tarefas domésticas e profissionais, e a tecnologia desempenhará um papel crucial em desafios globais, como mudanças climáticas e acesso à saúde. ​Source

Em suma, a Inteligência Artificial está moldando o presente e delineando o futuro. O equilíbrio entre inovação e responsabilidade será fundamental para maximizar seus benefícios e mitigar riscos potenciais.

Conclusão

Enquanto essas discussões se intensificam, uma coisa é certa: a Inteligência Artificial já está entre nós — e seu impacto só tende a crescer. Cabe a nós, como sociedade, decidir qual será o rumo dessa jornada tecnológica.